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Na década de 1960, a pílula contracetiva revolucionou o mundo ao ser introduzida na sociedade. Atualmente, os comprimidos são usados por 214 milhões de mulheres em todo o mundo, movimentando um mercado de 18 mil milhões de dólares anuais.   Mais de sei...

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Especialistas explicam por que ainda não existe pílula contraceptiva para homens

Publicado por: Redação
26/03/2021 16:49:32
Courtesy Pixaby
Courtesy Pixaby


Na década de 1960, a pílula contracetiva revolucionou o mundo ao ser introduzida na sociedade. Atualmente, os comprimidos são usados por 214 milhões de mulheres em todo o mundo, movimentando um mercado de 18 mil milhões de dólares anuais.

 

Mais de seis décadas depois desde a “apresentação oficial” da pílula, na lista de 20 métodos contracetivos da Organização Mundial da Saúde (OMS), só dois deles são para os homens. Mas por que não existe uma pílula para o sexo masculino?

 

“A ideia de se criar uma pílula contracetiva masculina existe há quase tanto tempo quanto a feminina”, diz Adam Watkins, professor de Biologia Reprodutiva da Universidade de Nottingham, no Reino Unido, à BBC.

 

Segundo Watkins, o principal desafio médico sempre foi o facto de que, enquanto a mulher liberta um óvulo por mês, o homem produz milhões de espermatozoides por dia. Mesmo quando o homem perde 90% da sua capacidade de produzir espermatozoides, continua a ser fértil, explica o especialista.

 

No entanto, esta não é a razão central pela qual nunca foi desenvolvida uma pílula eficiente e segura para homens.

 

“Acho que se o desenvolvimento não aconteceu foi por causa do sucesso da pílula contracetiva feminina. Esta funciona tão bem e é tão eficiente que, do ponto de vista económico, muitas empresas farmacêuticas não veem a necessidade de investir numa nova”, evidencia Watkins.

 

O professor diz ainda que “por distintos motivos, colocou-se o peso do cuidado com a contraceção nas mulheres. Foram elas que tiveram de assumir quase essa responsabilidade na totalidade, o que é um pouco injusto”.

 

Atualmente existem duas áreas de pesquisa nesse campo: uma focada na contraceção hormonal, com hormonas sintéticas para deter temporariamente o desenvolvimento de espermatozoides, e outra focada em técnicas que evitem que os espermatozoides entrem na vagina e consigam fecundar.

 

No entanto, os esforços dedicados à criação de uma pílula masculina enfrentaram obstáculos – incluindo efeitos colaterais causados por alguns componentes.

 

Em 2016, um estudo injetou testosterona e progestógenos similares às hormonas da pílula feminina em homens e teve de ser interrompido.

 

“Viu-se que que havia efeitos colaterais – como espinhas na pele, transtornos no estado de ânimo e aumento na libido – que os homens consideraram fortes e intoleráveis, o que levou ao cancelamento do estudo”, recorda o professor inglês.

 

“No entanto, muitos especialistas podem ver esses efeitos colaterais como relativamente pequenos em comparação com os enfrentados pelas mulheres que tomam pílula, que passam por ansiedade, aumento de peso, dores de cabeça, redução da libido e coágulos sanguíneos”.

 

A tudo isto, dizem especialistas, junta-se o facto de o preservativo ser um método mais barato e sem efeitos colaterais.

 

Ameaça à masculinidade
No entanto, para outros especialistas em saúde reprodutiva, é preciso ir além da falta de interesse das empresas farmacêuticas em apoiar pesquisas sobre a complexidade biológica da fertilidade masculina.

 

Para a médica Lisa Campo-Engelstein, diretora do Instituto de Bioética e Humanidades da Saúde da Universidade do Texas (EUA), “é claro que a pílula masculina não existe não por motivos científicos, mas por uma questão de género, de normais sociais”.

 

“Atualmente, as mulheres suportam a maior parte da carga financeira e de saúde relacionada à contraceção”, diz a investigadora à BBC. “Em geral, os métodos femininos tendem a ser mais caros que os masculinos, porque a maioria exige pelo menos uma visita ao médico, receita e repetição periódica”, acrescenta.

 

Campo-Engelstein é autora de um artigo de opinião que defende esforços em prol da pílula masculina e lembra que nos EUA muitos planos de saúde não cobrem a contraceção.

 

“Muitas mulheres desejam parar de tomar a pílula devido aos fortes efeitos colaterais e hormonais no seu corpo, mas muitas vezes não o fazem porque o homem apenas recorre à camisinha”, frisa a especialista.

 

O futuro
Tanto Watkins como Campo-Engelstein acreditam que vai chegar o dia da pílula masculina.

“Acho que tem havido mudanças que vão fazer com que as farmacêuticas dediquem mais recursos a isso. E há muitos homens dispostos a tomar a pílula, porque isso lhes daria controlo sobre o seu corpo”, diz Watkins.

 

O académico ressalta dois esforços que podem tornar-se numa base para um método eficaz e seguro: a pílula dos “lençóis limpos”.

 

A pílula dos “lençóis limpos” funcionaria limitando a libertação de esperma e, ao prevenir a saída de espermatozoides e do líquido que os transporta, poderia evitar gestações indesejadas e doenças sexualmente transmissíveis.

 

Contudo, essa pílula ainda só foi testada em animais, e estima-se que seja necessária mais uma década para estar apta para uso humano.

 

Em paralelo, Campo-Engelstein considera necessário que hajam também mudanças sociais, e não só avanços científicos.

 

“Para tal, precisamos de dedicar mais recursos ao desenvolvimento de métodos anticoncecionais para homens. No entanto, se não houver mudanças nas normas de género dominantes quanto à saúde reprodutiva, parece-me pouco provável que os homens usem a contraceção no mesmo ritmo que as mulheres”, remata.

 

Originalmente Publicado por: Planeta ZAP // BBC

 

 

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